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# Notas de investigação sobre os cartazes publicitários da CUF: uma inspiração francófona?
# Raquel Medina Cabeças
Alfredo da Silva modernizou a CUF inspirado nos complexos fabris franceses. Terá, a inspiração francófona reflexo no marketing dos cartazes publicitários da empresa nas primeiras décadas do século XX?
O cartaz foi o principal meio publicitário no séc. XX - artístico, graficamente detalhado, de grandes dimensões e forte recurso à cor. Tipicamente francês, estreou ações artísticas, cujo impacto na sociedade foi claro, com empresas a elegerem-no para promover produtos. A publicidade em Portugal ganhou dimensão - postais, jornais, catálogos (ICI-CUF “A cultura da vinha”, “milho”, “trigo”, por Ralph Mott) -, e os cartazes litográficos datam de 1912, publicitando empresas de conservas, a campanha do trigo e os produtos da CUF (1925-35), em período de exílio de Alfredo da Silva (AS) em Paris – que receberá a Fine and Applied Arts, Promotion of Art Deco at the International Exhibition of Modern Industrial and Decorative Arts (1925), com hipótese de o administrador lá ter estado. Mas, onde começa o contacto com uma C.ia francesa? Quando AS conhece Lefebvre, da C.ie du Phospho-Guano, que promovia os cartazes impressos por H. Lass e Pécaud & C.ie; pintados por Fermin Bouisset – o 1º com grafismos do estilo Arte Nova, exibe casal burguês e o progresso científico do setor para o público com poder de compra; o 2º com camponeses a lavrar, o realismo do trabalho árduo e tradição rural, que nos remete para o da St. Gobain, impresso por Hugo d’Alesi (pintor de cartazes, ilustrador) anos antes, em 1889, com as mesmas características. Nos da CUF (1929, por Renato Graça, Litografia Potugueza; 1935, por Jaime Martins Barata, ilustrador de Lisboa, Oito Séculos de História), promoveram os adubos através da ideia de que o seu uso enriquecia - os 1ºs 4 representam Zé Povinho na evolução de transporte - “passou de burro a cavalo” -, com semblante feliz em paisagem agrícola; nos restantes 4, figuras de roupas cuidadas com veículos a motor e casas nobres, demonstrando o progresso da vida económica - “finalmente, para milionário…só me falta ser…grande moageiro”. Nestes exemplos verifica-se o uso de simbolismos, ideias promissoras e trabalhadores ou produtores satisfeitos, com grafismos e letterings idênticos. Existem outros modelos - os alemães ou os de Mário da Cunha Motta -, contudo focámo-nos na hipótese de que a influência francesa vai além dos modelos fabris.
Bibliografia Cabeças, Raquel Medina (2022). A Circulação de modelos fabris: o traço francês nos planos CUF. In Faria, Miguel Figueira de e Fernandes, José Manuel (Coord.), Arte e Arquiteturas CUF: Histórias e Contexto. Parede: Princípia. Faria, Miguel (2021). Alfredo da Silva e Salazar. Lisboa: Leya/Dom Quixote Fialho, João (s.d.). O Cartaz testemunho do passado. Texto policopiado. Torres, Cintra (2023). História da Publicidade em Portugal. Parede: Princípia.
Figs. 1 a 3 – Cartaz da Cie du Phospho Guano, Archives Calvados, 25FI Affiches illustrées, Honfleur ; Cartaz de Lefebvre frères, Cie du phospho guano, Fermin Bouisset, Muzéo Art Shop; Cartaz da Société de St. Gobain fondée en 1665, Hugo d’Alesi, Muzéo Art Shop.
Figs. 4 e 5 – Cartaz da CUF, 1930, Fundo Bondalti (ACAS), Série de cartazes publicitários dos adubos CUF, 1927-1934; Cartaz da CUF, 1934, Fundo Bondalti (ACAS), Série de cartazes publicitários dos adubos CUF, 1927-1934.


